Bolsonaro ignorou ofertas de vacinas da Pfizer que poderiam evitar mortes

 

Propostas previam 100 milhões de doses de imunizantes contra o coronavírus, sendo 1,5 milhão entregues já em dezembro no ano passado. O país só iniciou a vacinação no final de janeiro

O ex-presidente da Pfizer no Brasil e atual gerente-geral da empresa na América Latina, Carlos Murillo, disse que a farmacêutica apresentou propostas ao governo Bolsonaro para entregar 100 milhões de doses de vacinas, sendo que em uma delas 1,5 milhão de doses chegariam em dezembro. O Brasil só iniciou a vacinação no final de janeiro deste ano com o imunizante CoronaVac, do Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac.

Em 14 agosto do ano passado, a farmacêutica ofertou 70 milhões de doses ao Brasil, sendo 500 mil para 2020; 1,5 milhão para o primeiro trimestre de 2021; 5 milhões para o segundo trimestre de 2021; 33 milhões para o terceiro trimestre de 2021; e 30 milhões para o quarto trimestre de 2021. Na segunda oferta, foram 30 milhões, considerando 1,5 milhão de doses já em dezembro de 2020.

A informação, passada por Carlos Murillo durante seu depoimento nesta quinta-feira (13) na CPI da Covid do Senado, desmentiu o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello que afirmou aos senadores que a proposta da farmacêutica foi de apenas 6 milhões de doses, sem nenhuma previsão de entrega no ano passado.

Para o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), a informação que Carlos Murillo trouxe à CPI é esclarecedora. “Se o governo brasileiro tivesse adquirido vacinas ano passado, as 20 milhões oferecidas, nós teríamos protegido toda a população com mais de 60 anos e ainda sobraria”, calculou.

Segundo ele, o governo Bolsonaro ignorou oferta de vacina. “O Brasil deixou de receber 1,5 milhão de doses da Pfizer em 2020. Perdemos vidas e não foi só para a Covid-19. A CPI foi instalada para corrermos atrás dessas vacinas perdidas e de justiça às vidas que perdemos”, reagiu o vice.

Mentira

Numa sessão plenária da Casa, em 11 de fevereiro deste ano, o ex-ministro Pazuello afirmou que mesmo que o governo aceitasse “todas as condições impostas” pela Pfizer a quantidade ofertada era mínima. “500 mil doses em janeiro, 500 mil doses em fevereiro e 1 milhão de doses em março; 6 milhões no total no primeiro semestre. “Senhores, nós não podíamos ficar nisso”, disse Pazuello na ocasião.

O relator Renan Calheiros lembrou que, por meio de nota, a empresa contrapôs-se a informação e afirmou que ofertou 70 milhões de doses naquela oportunidade, com entrega de parte desse quantitativo já em dezembro de 2020. “Eu confirmo nossas ofertas para o governo do Brasil”, afirmou o dirigente.

Questionado pelo relator sobre as dificuldades que encontrou durante as negociações com o ex-ministro Pazuello, o diretor afirmou que foram temas complexos. O primeiro deles a questão da logística. “A nossa vacina requer um armazenamento a -70 graus, e esse era um dos temas de maior preocupação para o governo. Porém, no final de outubro, numa reunião que nós tivemos no ministério, nós fomos à reunião apresentar ao ministério a caixa de embalagem que a Pfizer, em parceria com outras companhias, tinha desenvolvido, o que permitia o armazenamento da nossa vacina nessa caixa somente com troca de gelo seco por até quinze dias e logo poderia ser armazenada em refrigerador comum por até cinco dias”, disse ele, que considerou o problema resolvido em novembro.

Segundo ele, Pazuello ainda apresentou mais outros obstáculos para efetivar o contrato com a farmacêutica: “Uma era o registro da Anvisa e a segunda era uma autorização legislativa específica para atender às condições contratuais que estávamos negociando. Esse foi, durante os meses de novembro, dezembro e janeiro, o objeto das negociações”, revelou.

Carta

Carlos Murillo também confirmou o que disse à CPI o ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajangarten sobre a carta que foi enviada pela empresa, em setembro do ano passado, alertando as autoridades brasileiras a respeito da urgência de fechar negociação para a compra da vacina. O documento, que foi enviado para o presidente Bolsonaro, vice Hamilton Mourão, ministro Paulo Guedes (Economia), ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e o embaixador dos Estados Unidos, Nestor Forster, ficou sem resposta por dois meses.

“Tive duas interações com o ministro Pazuello. A primeira, no mês de novembro, ele fez uma ligação para o meu celular, colocando-se à disposição para nós continuarmos a conversação. Nesse momento, nós tínhamos enviado a nova oferta de 70 milhões”, revelou o dirigente da Pfizer.

 “Se você virar um jacaré”

O relator perguntou ao diretor se as declarações de Bolsonaro, em 18 de dezembro de 2020, sobre a vacina da Pfizer não lhe tiravam a confiança num possível desfecho do acordo. E citou as seguintes frases do presidente: “Se você virar um jacaré é problema seu, se virar o Super-Homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou um homem começar a falar fino, eles não têm nada a ver com isso”. Ele foi lacônico na resposta: “Sinceramente, o momento que eu estive confiante da assinatura foi o dia 19 de março, quando foi assinado”. Ou seja, somente este ano.

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